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Qual o Futuro da Música 
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Mensagem Qual o Futuro da Música
Revista BRAVO! | Março/2009

O grupo Radiohead, que vem neste mês ao Brasil, abriu a temporada de previsões sobre as mudanças na arte de compor e veicular canções. Das ideias levantadas, saiba o que faz sentido e o que é só especulação

Por Arthur Dapieve

O já clássico CD In Rainbows não prometia apenas um pote de ouro ao fim da jornada. Lançado em outubro de 2007, o sétimo e mais recente álbum de estúdio do grupo britânico Radiohead, que vem neste mês ao Brasil, acenava para o mundo da música com toda uma nova província repleta de minas de ouro. Primeiro, o grupo disponibilizou o disco inteiro para download na sua página na internet. O fã poderia pagar o que quisesse, a partir de nada. Se, no entanto, pagasse 40 libras (cerca de R$ 130 hoje), recebia em casa uma edição especial com In Rainbows em CD e em dois LPs de 45 rpm, mais um CD de faixas-bônus e dois encartes. Multicoloridos, naturalmente.

Foi uma jogada criativa, ousada e, não fosse o Radiohead oriundo da universitária Oxford, intelectualizada: ao mesmo tempo em que na prática propunha um novo estilo de comercialização, o esquema desafiava o internauta: "Quanto você acha que vale o nosso trabalho?". A partir dessa antevisão de um possível futuro, os profetas do ramo se lançaram a inúmeras predições de curto ou curtíssimo prazo. Portanto, um ano e meio depois do lançamento de In Rainbows, e às vésperas dos longa e ansiosamente aguardados shows do grupo no Rio de Janeiro e em São Paulo (leia mais sobre a banda a partir da página 34), faz sentido checar a realidade de dez delas.

1- O método de vender música sem que ela tenha um preço definido vai se popularizar, estabelecendo uma relação direta de mercado?

TALVEZ. Popularizar talvez não seja bem a palavra. Multiplicar, sim. Porque, sejam elas grandes ou pequenas, somente bandas com um público fiel (cada vez mais raras) podem se arriscar numa empreitada como In Rainbows. Nela, do mesmo modo que o artista tem de confiar no fã a fim de não receber uma banana em troca, o fã tem de confiar no artista para gastar o seu ganha-pão. Por ter cultivado a audiência em 20 anos de carreira, o Radiohead foi extremamente bem-sucedido. Botou o disco na internet, captou dinheiro sem a custosa intermediação de sua antiga gravadora (a EMI), despachou os kits especiais pagos pelos fãs mais abonados e ainda botou o CD nas lojas. Então, para surpresa quase geral, In Rainbows de cara atingiu o topo das paradas inglesa e americana em janeiro de 2008. Nos EUA, isso correspondeu a 122 mil cópias vendidas "normalmente", isto é, no balcão. Menos da metade que Hail to the Thief, de 2003, vendeu na sua primeira semana. Mais do que o Radiohead teria vendido se não tivesse posto In Rainbows para download, como declarou na ocasião um dos empresários da banda, Bryce Edge, ao New York Times. Naturalmente, outros tipos de comércio direto entre artistas e fãs já existem e são viá­veis (vendas em sites próprios ou na porta de concertos, consórcio de ouvintes etc.), mas em todos eles a lacuna "preço" já vem preenchida. Quem mais se arrisca a dar a cara a tapa?

2- O CD vai mesmo acabar em cinco anos? Qual será o impacto cultural disso?

NÃO. Apesar de gigantes do ramo, como a Warner, trabalharem com a perspectiva de o CD sumir da face da Terra nesse prazo, tal cenário apocalíptico é cada vez menos provável. O que (não) aconteceu com o vinil agora serve de paradigma para o que (não) vai acontecer com o CD. Em meados dos anos 80, dizia-se que este varreria aquele do mercado. Embora, no primeiro momento, isso quase tenha se concretizado, o LP foi voltando, e voltando com força cada vez maior, a ponto de alguns dos principais lançamentos de 2007 (como Favourite Worst Nightmare, dos Arctic Monkeys, um fenômeno da internet) terem vendido mais em vinil do que em CD na Grã-Bretanha. Logo, o CD deve-se tornar outro importante nicho, abastecido por selos como o americano Light in the Attic e suas caprichadíssimas reedições, de Karen Dalton ou Betty Davis. Uma das razões para isso é que o CD ainda tem uma qualidade sonora muito maior do que a música disponível na internet para download — o que faz com que ele proporcione uma experiência musical muito mais rica (veja item 10). De qualquer forma, a quebra do virtual monopólio do CD no mercado já gerou importantes mudanças culturais.

3- Os artistas deixarão de pensar sua obra em álbuns e pensarão música a música?

SIM. E essa é uma das mais importantes mudanças culturais. De certa forma, porém, essa também é uma volta às raízes. Até os anos 40, a música era comercializada uma a uma (normalmente com um lado B de contrapeso). Os artistas as lançavam em compactos, ou singles, de 45 rpm. A partir do advento dos espaçosos LPs de 33 rpm é que os mais bem-sucedidos passaram a reunir seus compactos já testados e aprovados pelo público nesse "álbum". Alguns elevaram essa maneira de pensar ao status de arte, concebendo álbuns em que todas as músicas se interligavam, criando um conceito — como os Beatles em Sgt. Peppers. Com o tempo, o próprio álbum tornou-se moeda corrente: qualquer zé-mané estreante gravava logo um LP inteiro sem ter feito por merecê-lo. Muita música ruim foi produzida dessa forma... Mesmo artistas competentes nem sempre conseguiram estar lá muito inspirados por dez ou 12 faixas seguidas. E tome encheção de linguiça... Nos anos 70, a crítica musical dizia com frequência que duas ou três faixas já justificavam, por si sós, a aquisição de determinado LP; hoje, ela seria apedrejada se sugerisse algo parecido. Álbuns continuarão existindo, claro, mas cada vez mais restritos a quem tem algo a dizer.

4- E os ouvintes mais jovens, da geração iPod? Eles já têm esse tipo de relação com a música? Faixa a faixa, e não por álbum?

SIM. A garotada já nasceu num mundo em que o compacto voltou a imperar. Assim, cada música precisa ganhar a sua disputadíssima atenção... Antes de logo ser trocada por outra, como no shuffle do iPod. Se, por exemplo, o guri ouve Beirut pela primeira vez na minissérie Dom Casmurro, não vê por que comprar o EP Lon Gisland importado. (EP é o meio-termo entre o compacto e o álbum.) Elephant Gun, a música usada na TV, é baixada sozinha. Entretanto, ela é bonita o bastante para atiçar a sua curiosidade por mais músicas compostas por Zach Condon... Esse guri nada hipotético pode baixar o EP e os dois álbuns do Beirut inteiros... E, se virar fã de carteirinha e quiser melhor qualidade de som, ainda pode, quem sabe, comprar os CDs... Mais uma vez, o talento separa o joio do trigo. Pirataria? Pirataria é copiar discos em série para vender.

5- Em vez de CDs, os artistas lançarão seus trabalhos em sites?

SIM. Isso tem acontecido cada vez mais. Não só como possibilidade de venda direta, mas, sobretudo, como teste/aperitivo de uma música. Se bem recebida pelos fãs, tal música pode, ou não, vir a fazer parte de um álbum "à moda antiga". No Brasil, por exemplo, Leoni tem feito isso regularmente em seu site, à base de uma nova música por mês. Até agora, ele já apresentou sete novas canções (como a bela É Proibido Sofrer, parceria com a sua mulher, a atriz Luciana Fregolente) e vai disponibilizar para download gratuito mais cinco. As12 devem formar o seu próximo álbum, um álbum já testado e aprovado na internet.

6- Com esses lançamentos em sites, haverá interatividade como nos CDs do Beck?

TALVEZ. No já longínquo final de 2004, Beck vazou Guero na internet, num mix provisório. Em março do ano seguinte, o álbum foi lançado física e oficialmente. Seguiram-se uma edição especial, com sete faixas extras, som 5.1 e arte interativa, e um disco de remixes, Guerolito. Sem falar nas incontáveis versões feitas por fãs. Foi um auê. De lá para cá, o americano tornou-se um dos artistas que melhor pensam a passagem de uma cultura digital ainda baseada em suportes concretos para uma cultura inteiramente digital, quase abstrata. "São formatos diferentes e inspiram abordagens distintas", disse à revista Wired em 2005. "É hora de o álbum abraçar a tecnologia." CDs que "abrem" conteúdo exclusivo (e passivo) na internet não eram novidade quando ele lançou Guero. Contudo, Beck vislumbrou um futuro mais complexo. Tão complexo, aliás, que por enquanto bem poucos conseguiram chegar a ele. Um dos que chegaram foi o cantor Trent Reznor, do grupo Nine Inch Nails. Entre outras coisas, ele ofereceu jogos de realidade virtual e fez os fãs remixarem suas músicas.

7- Vão acabar os popstars, os artistas que marcam uma geração, como os Beatles nos anos 60 ou Madonna nos 90? Iniciaremos uma era de cauda longa em que cada vez mais artistas venderão cada vez menos de seus discos, como escreveu o jornalista americano Chris Anderson?

NÃO. O rabo cresceu, ampliou-se e vai continuar espichando, certamente: dia a dia, há cada vez mais candidatos a ídolos em oferta enquanto a procura dos fãs é cada vez mais dispersa. Nos tempos pré-digitais já vinha sendo mais e mais difícil "chegar lá" porque os termos de comparação são sempre cumulativos: cada garoto que pega numa Fender Stratocaster pela primeira vez hoje tem de se medir por todos os outros garotos que pegaram numa Fender Stratocaster antes dele, não só com Eric Clapton — ao menos se quiser viver disso. Com a cultura digital, a competição se tornou mais dramática, mas ainda há vagas para ídolos. Os Arctic Monkeys, por exemplo, que se popularizaram a partir do boca-a-boca gerado na internet, bem podem ser os grandes astros desta geração. E a web alarga o espaço para fenômenos localizados, para estrelinhas como Mallu Magalhães.

8- A facilidade dos arquivos digitais acelera o processo de banalização da música?

SIM. Desde que a música passou a ser gravada, em fins do século 19, esse processo está em andamento. Antes do advento das gravações, ouvir música implicava sair de casa, reunir-se aos concidadãos, apreciar uma execução única de uma obra de Brahms. Havia uma dimensão meio sagrada nisso. Com os discos físicos, a música passou a ser consumida a qualquer momento, em casa, solitariamente, em família ou entre amigos, em torno do último LP dos Beatles. Ainda havia algo de mágico e misterioso nesse tour. Hoje, os aparelhos portáteis com fones de ouvido carregam Britney Spears o tempo todo, por todos os lugares, num vício solitário. Escuta-se tanta música que já não se ouve quase música alguma. Nossa sociedade tem horror ao silêncio, talvez por nele pressentir a morte. "O resto é silêncio", diz Hamlet. Porém, é o silêncio que dá sentido à música.

9- O artista viverá dos shows e não das gravações?

SIM. Essa já é uma realidade há bastante tempo para os nomes bem-sucedidos, como Caetano Veloso ou Paralamas do Sucesso. Tanto que, diante da crise em suas outrora infinitas terras, algumas gravadoras pressionaram para se tornar sócias de seus contratados também nas turnês. Todavia, o caso mais criativo e notório é o da Banda Calypso, que pirateia os próprios discos. Os vendedores que correm ruas e praias do Norte-Nordeste com sistemas de som armados sobre carrinhos estimulam o público a ir aos seus shows, que são onde de fato Joelma e Chimbinha ganham a vida.

10- Os novos formatos desprezam frequências da música, levando à perda da riqueza e da profundidade do som?

SIM. O arquivo mais comum, o de 256 kbps, comprime a música de tal forma que joga fora as frequências nas "beiradas" do espectro, as mais agudas e as mais graves — que, no entanto, são preservadas no CD e, em menor grau, até no velho LP. No MP3, fica uma maçaroca monótona, chapada, que tende a cansar o ouvido e fazer toda música soar como a mesma. O Radiohead, na hora de dar In Rainbows de presente, comprimiu-o mais, em 160 kbps. Não dava para amplificar e tocar na festinha. Por outro lado, em 2008, quando o Nine Inch Nails ofereceu o álbum Slip para download gratuito ("como agradecimento pelo apoio constante" dos fãs), já o fez em cinco formatos: do MP3 de alta qualidade ao Wave 24/96, som melhor do que o de um CD — desde, é óbvio, que se tenha um bom som acoplado ao computador, não umas caixinhas de papel. Arquivos pesados afugentam o ouvinte casual, certo, mas quem ama a música de paixão precisa deles: ouvir, de verdade, o que o artista tem a dizer e reagir a isso emocionalmente ainda é a experiência interativa por excelência.


Artur Dapieve é jornalista e escritor, autor de De Cada Amor Tu Herdarás só o Cinismo (2004) e Black Music (2008).

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Sáb Mar 14, 2009 9:48 pm
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
Zé Ruela escreveu:
O Radiohead, na hora de dar In Rainbows de presente, comprimiu-o mais, em 160 kbps. Não dava para amplificar e tocar na festinha.

Rá Rá, pede pra ele contar a do papagaio agora...

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Dom Mar 15, 2009 8:37 pm
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
Matéria legal.
De qualquer jeito, uma festinha onde toquem esses novos CDs do Radiohead não deve ser lá muito animada :lol:

E enquanto isso, na sala de justiça, Orkut perde sua maior comunidade para troca de músicas

Lamentável. Era o maior banco de dados pra download, de fácil acesso e etc. Mas antes de tudo era muito mais útil para divulgação de bandas novas e independentes.

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Seg Mar 16, 2009 8:57 am
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
Acho que é por aí mesmo. E some-se a isto o fato de que a figura/conceito do artista mudou muito. A tal banalização que o Dapieve fala também atingiu o artista. Tão aí os reality shows que formam "celebridades/artistas" sem conteúdo nenhum. E tome participação de bandas em Big Brothers da vida...afinal, a presença na mídia - a exposição maçiça da imagem - tornou-se quase obrigatória.


Seg Mar 16, 2009 10:57 am
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
Eu era "cliente" dessa comunidade. Não era o melhor lugar pra se achar material bom e em qualidade (gravação + covers), mas quebrava um galhaço. Claro que não vai adiantar nada. Essa indústria é patética.

Lá na Inglaterra uma associação /entidade defendeu que se pare com essa palhaçada de tentar responsabilizar os ouvintes. Uma série de músicos faz parte dessa associação aí, até o David Gilmour :shock: .

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Seg Mar 16, 2009 1:49 pm
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
isso (entre outras coisas) me faz pensar seriamente em dar um tempo de mp3...descobri muitas bandas e artistas bons pela internet, nunca tive chance de ouvir nem em cd (ex: chet baker, supertramp, fleetwood mac, cidadão instigado, além de gravações e músicas desconhecidas de bandas de que já ouvia).

fui na casa de um amigo que ainda tem toca-discos e colocamos em LP ''roda viva'' com chico e mpb-4. escuto frequentemente ela em mp3 e digo: é outra música, outra textura...

não da pra fugir...mas mp3 diariamente faz muito mal ao ouvido :?


Qui Mar 26, 2009 10:20 pm
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
De volta pros fregueses,
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=56139232

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Sex Mar 27, 2009 12:12 am
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
Valeu !

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Sáb Mar 28, 2009 12:57 am
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
Eu estou na mailing list do Beni Borja, músico, produtor/parceiro do Kid Abelha, dono de um selo, etc.

Achei que vale a pena ler esse texto dele:

Como jogar dinheiro fora alegremente


Apesar de muita gente só enxergar "produto" , música é arte. É isso mesmo - não se espante - música é arte, como literatura, artes plásticas, teatro e dança. Antes de existirem discos, o negócio de vender música era muito parecido com o negócio de vender quadros,esculturas, livros e ingressos para espetáculos. O aparecimento da indústria fonográfica mudou, ao longo do finado Século XX, a maneira como se fazia dinheiro com música , a maneira como o público se relacionava com música , mas não mudou a realidade essencial de que música é arte. Hoje, quando o negócio de vender música gravada vai numa ladeira abaixo inevitável, nós "gente da musica" voltamos a ser apenas o que sempre fomos, produtores e vendedores de arte. Durante os cinquenta anos onde objetos circulares de shellac, vinil ou plástico passaram a conduzir o processo de vender música , aconteceu uma inversão de valores no negócio da música que hoje vem cobrar seu preço. Assisti durante a minha vida profissional , uma crescente invasão do negócio da música por profissionais com formação e mentalidade ligada a comercialização de produtos de consumo. Marqueteiros,agentes, comerciantes e executivos de companhias de discos passaram a acreditar que vendiam um produto industrial de consumo, e que portanto deviam aplicar a venda de música a mesma lógica que se aplica a comercialização de pasta de dentes, salsichas ou papel higiênico. Construiu-se a partir dessa premissa falsa um modelo de negócio doido, que ignora verdades básicas sobre a relação do consumidor com obras de arte. Hoje esse modelo dá claras demonstrações de incompetência no que deveria ser sua primeira obrigação - transformar arte em dinheiro. Um exemplo prático da inépcia do atual modelo do negócio da música: Essa semana o artista plástico inglês Damien Hirst vendeu num leilão na Sotheby´s a sua produção dos últimos três anos, faturou 127 milhões de dólares. A Madonna fechou esse ano ,com grande alarde, um contrato de venda da sua produção (discos e espetáculos) com a Live Nation - 100 milhões de dólares por 10 anos de trabalho. Ou seja, a Madonna vai precisar trabalhar dez anos para ganhar menos do que o Damien Hirst faturou em três. Então todos os milhões que a Warner gastou ao longo de vinte anos para fazer a Madonna ser um nome reconhecido no planeta foram simplesmente dinheiro jogado fora? Afinal, quem conhece esse tal de Damien Hirst??? Só conhece Damien Hirst quem precisa conhecer. Quem gosta de arte contemporânea, quem tem interesse pelo seu trabalho. Ahn? então? Marketing não interessa??? Claro que interessa. Marketing é fundamental. Mas marketing errado é a maneira mais eficiente de jogar dinheiro fora que existe. Quando se aplica ao mercado das artes a lógica do marketing de produtos de consumo industrializados, joga-se dinheiro fora alegremente. Produtos de consumo são coisas que voce PRECISA comprar. Arte é uma coisa que você compra porque DESEJA. Todo mundo precisa comprar pasta de dente. Por isso faz sentido usar veículos de massa para alcançar o maior número de consumidores possível. Porque como sabemos, na hora de escolher a pasta de dente no supermercado , muito provávelmente voce vai escolher a que voce viu anunciada. Com arte não é assim. Ninguém precisa comprar uma obra do Damien Hirst , acho até que a maioria das pessoas iria achar uma vaca partida ao meio de extremo mau-gosto, assim como eu não iria ao show da Madonna, nem se me buscassem em casa. Ou seja , bombardear de anuncios quem não se interessa por uma determinada obra de arte, não resulta em nenhum centavo de faturamento. Assim como há colecionadores que pagam milhões de dólares por vacas esquartejadas , há quem deixe de comer uma semana para ir ao show da Madonna. Encontrar essas pessoas é a missão do marketing de arte. Cá estamos no fim da primeira década do século XXI, com milhares de canais de interação com o público, em plena era do "permission marketing" e vejo um cartaz (lindo por sinal) em todos os pontos de ônibus da cidade . anunciando o novo disco do meu amigo Frejat. Deve existir algum prazer que eu desconheço em jogar dinheiro fora.


http://diariomusical.blogspot.com/


Tem um texto mais novo, posto logo mais.

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Sex Mai 22, 2009 9:56 am
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
Mesma coisa que deixei em outro tópico com tema + ou - semelhante...

Sem dúvidas que já estamos numa época transitória sobre a indústria do entretenimento. O download está aí não só para o mercado musical como também para softwares, jogos, livros e filmes. Eu não vou ao cinema a uns 3 anos. Nem sei qual foi o último filme que fui ver no cinema. Locadora então nem pensar! E olha que tenho um amigo dono de locadora que me cede filme de graça tranquilamente no caso de alguma locação!
Tudo bem que a imagem de um dvd Rip é um pouco ruim mas já existe bluray Rip e a imagem é muito melhor! A única coisa que pega, para muitos, é o conhecimento para encontrar / baixar arquivos e tamanho do monitor que é pequeno para assistir um vídeo, mas com qualquer Tv de Lcd ou Plasma + um cabo apropriado você tem uma boa tela servindo de monitor.
Por enquanto a quantidade de pessoas que deixa de ir ao cinema por causa de um download não é tão expressivo assim. Pelo menos aqui no Brasil. Lá fora o número de viciados em download já é maior. Em contrapartida, a pirataria leva grande parte do lucro dessa indústria por aqui! E nessa, os Três Poderes(Legislativo, Judiciário e Executivo) é quem comem a maior fatia do bolo realizando falsas apreensões de material encalhado e defeituoso dos ambulantes que nem dão prejuízo a pirataria e sim um custo necessário... Ou melhor, entenda "custo necessário" como um investimento para continuar o bom negócio. Todos continuarão com seus cargos públicos intactos, a rede do mercado de ambulantes continuará trabalhando e pagando suas propinas para continuar prosperando, e nós continuaremos tentando economizar, mesmo que de bolsos ainda vazios, com os olhos fixos numa telinha ou ouvidos em um phone!
A indústria do entretenimento que dê seus pulos e aprenda a sobreviver na era onde a informação e o dinheiro atravessam o mundo em 1 segundo!


Editado pela última vez por alemfontenele em Seg Mai 25, 2009 7:56 pm, em um total de 1 vez.

Seg Mai 25, 2009 7:07 pm
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
Mais um texto do Beni Borja,

Caríssimos,

Morreu o rei. Viva o rei!

Normalmente quando um rei morre, o povo já conhece o seu sucessor. Não há nenhuma confusão, nenhuma inquietação. O povo dá quinze minutos de atenção ao novo rei, e segue sua vida sem maiores sobressaltos.

Numa revolução, ninguém substitui imediatamente o rei destronado . Há sempre um momento de vazio de poder. Ninguém sabe quem manda , ninguém sabe a quem recorrer. Durante essa transição vive-se numa total incerteza sobre o futuro. Uma situação muito estressante, mesmo para não quer mandar em ninguém.

Nesse momento de confusão, os revolucionários proclamam que o poder acabou, que agora viveremos como cidadãos livres, independentes do poder dos outros. O povo se agita , cada um toma um partido, mas inevitávelmente o poder se reorganiza. E por fim um novo mandatário tomará o lugar do antigo.

Essa pequena lição básica de ciencia política pode ter alguma serventia , num momento como o atual.
Estamos vivendo tempos revolucionários no negócio da música.

Os reis (gravadoras) foram destronados. Antes elas tinham o poder de decidir quem ia ser popular e quem ia ficar tocando para as paredes. Não mais. No vácuo do poder, os revolucionários ( os "geeks" da vida) proclamam que viveremos todos felizes para sempre, sem poderosos. Cada um por si, numa família feliz.
Não creio.

Nessa altura do campeonato , imaginar que cada um de nós ,criadores de música ,vai se relacionar diretamente com seus fãs ,sem nenhuma intermediação corporativa, me parece uma visão de um inferno medieval. Para quem se preparou a vida toda para fazer música, ficar administrando "amigos" nos myspaces e orkuts da vida, parece uma condenação a um purgatório infinito.

Músicos querem fazer música, não querem administrar negócios.

A especialização do trabalho é um fato inescapável da vida econômica no nosso tempo. Quem faz arte ,se puder, se ocupará só de criar. Quem gerencia os negócios que surgem à partir da arte , tenderá a se ocupar exclusivamente de fazer dinheiro com a criação dos outros. Essa divisão de trabalho é um avanço da civilização, que não vai desaparecer só porque apareceu um novo modelo de negócios. Passado o momento de confusão , continuaremos tendo empresários e artistas.

Rezo e torço para que tenhamos no futuro um sistema de comercialização de música melhor do que aquele do qual ,sem nenhuma tristeza, agora nos despedimos . Um sistema mais inclusivo, mais respeitoso, que entenda os prazos e os compromissos da arte. Não sei o que o futuro nos reserva. Mas não é difícil enxergar que o poder está migrando dos detentores de música gravada para os promotores de música ao vivo.

Se o dinheiro está na música ao vivo , é de lá que devem sair os futuros poderosos fazedores de sucesso, que inevitávelmente surgirão.

Saudações musicais ,

Beni



Não sei se ele posta isso em algum blog, pois não achei.
Em todo o caso é bom linkar com alguma coisa,
http://www.psicotronica.com.br/guru.html

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Qua Mai 27, 2009 9:40 am
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
Legal o texto. Já aconteceu, mais de uma vez, quando quis procurar um disco ter sido mais fácil baixá-lo a descobrir aonde estava nas minhas bagunças. Há uma tendência em se guardar dados remotamente. Convergindo duas situações como essa, TALVEZ no futuro tenhamos grandes catálogos disponíveis por assinatura na rede e as pessoas paguem pra ouvir música online (por ser mais interessante pra elas; não por conveniência/paranóia das gravadoras). Com relação à música ao vivo, espero (quero dizer tomara) que isso não fique ainda mais inacessível - como vem se tornando com esses ingressos caríssimos.

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Qua Mai 27, 2009 1:14 pm
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
Mais um texto do Beni Borja. Foge do tema "gravadoras" mas é muito interessante por tratar dos primórdios dos direitos autorais:

Beni Borja escreveu:
Caríssimos,

Antes de mais nada , muito obrigado pela leitura crítica e pelos comentários.

Visões apocalípticas nos assaltam por todo lado. O produto físico acabou. A música gravada será gratuita. Os publicitários vão tomar conta do negócio e todos faremos jingles. Morreremos todos de fome. Parece interminável a lista de desgraças previstas para o nosso destino de fazedores de música.

Prever o futuro é esporte de alto risco, do qual já me aposentei.

O certo é que estamos perdendo a locomotiva do negócio da música como conhecíamos. Mas o trem é longo , e essa não será a primeira vez que trocamos de locomotiva. Uma visita aos 250 anos de história que precederam as nossas incertezas de hoje, talvez possa nos acalmar um pouco.

Duzentos e cinquenta anos !?! É isso mesmo que voce leu. O negócio da música começou a tomar a forma empresarial que ele tem hoje em meados do século XVIII , quando as primeiras editoras de música foram fundadas.

As editoras são as empresas mais antigas do negócio da música. Se chamam editoras porque originalmente o seu negócio era publicar partituras. Algumas dessas empresas ,com mais de duzentos anos, como a italiana Ricordi e a inglesa Boose & Hawkes , continuam publicando partituras até hoje.

No final do século XIX , para ouvir música era preciso que alguém a tocasse. As partituras eram então a locomotiva da música.
Para um compositor dessa época, ter sua música publicada por uma grande editora era como para um artista de anteontem ter seu disco lançado por uma grande gravadora, era o caminho inevitável para alcançar o sucesso comercial.

No início do século passado, em poucos anos, a música gravada substituiu as partituras como propulsora do negócio da música. Quando o público inevitávelmente passou a preferir ouvir Enrico Caruso do que o tenor desafinado da esquina , uma paisagem desconhecida tomou o horizonte da música.

Então apareceram os inevitáveis cavaleiros do apocalipse. Quem vai escrever música, sem editoras para lançá-las ? Quem vai fabricar instrumentos se só músicos profissionais vão tocá-los? Quem vai pagar as nossas contas??

A crise veio e muitas editoras fecharam ou foram compradas por outras. Mas com o passar dos anos muitas sobreviveram, porque usaram o relacionamento que tinham com os compositores para se tornarem suas representantes nas relações que eles precisaram estabelecer com as novas gravadoras e os intérpretes das suas obras.

As editoras ,desde então, são as representantes dos autores na exploração comercial das suas obras. Esse papel de representante (muitas vezes feito de forma lesiva aos interesses econômicos do autor, mas isso é conversa que não cabe aqui) garante as editoras um lugar destacado no empurra-empurra de rearrumação que estamos vivendo entre os principais atores no negócio da música.

Ou seja, muita calma nessa hora , porque o futuro a Deus pertence.

Saudações musicais,

Beni

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It's a lot easier to swap tubes in an amp than practice an hour a day. It's not that people won't believe you, it's that they don't want to.


Qua Jul 15, 2009 6:19 pm
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
Leiam só. Rush pode desistir de gravar albuns. Muito interessante e, para eles, é certeza de que os fãs consumirão qualquer coisa que lancem.

"Rush drummer Neil Peart says the legendary Toronto band is in the early stages of planning a new project but the new music may not be released in traditional album format. 'We feel very much liberated from the album format in a way right now, because in the three years since our last album (2007's 'Snakes & Arrows'), suddenly albums don't mean anything,' Peart told The Canadian Press in a telephone interview from his home in California. 'We're thinking of writing and recording a few songs and maybe releasing them, and playing them live, and then going back and doing some more later. We just feel really free (in terms) of what we might do right now. 'Anything is possible in the nicest way and we like the fact of shaking it all up.' Peart says he's started writing new lyrics while bandmates Geddy Lee and Alex Lifeson are preparing at their Toronto studio ('every time we start a new record, the technology is all different, and we've gotta learn it . . . again,' he explains). Asked if he would be willing to reveal details of any of the new songs, the personable Peart replied: 'No, sir. (But) I like them.' But the 57-year-old says the band is aware that the record industry is in flux, and would rather adapt with the times than worry about the past. 'We're kind of taking this as a challenge to do something with, rather than to moan about,' he explained. '(It's) a healthier reaction than getting mad: 'Aww, things aren't how they used to be -- we wanted to make a 12-inch album with two sides!' Those things ARE hard to give up, and every time now we make a side one and side two mentally and build the dynamics . . . so there is something lost. 'But, on the other hand, it's pointless to lament about it, and now we have the opportunity to take advantage of this amorphous situation going on in the music business right now.'... - The Canadian Press, Janurary 13, 2010 -

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Ter Jan 19, 2010 3:59 pm
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Mensagem Re: Qual o Futuro da Música
Bem interessante!

Muita gente está fazendo isso, lançando somente na internet, de graça ou pago.

Um formato que acho muito interessante é a combinação de gravadora fazendo o meio de campo da grana e lançar somente online, como os downloads patrocinados da Trama. Não sei se é viavel comercialmente, se é satisfatório pra banda e para o patrocinador e para a gravadora, mas me parece uma alternativa bem interessante.

http://albumvirtual.trama.uol.com.br/

Porque só colocar online de graça eu não vejo como pode dar certo, a não ser para alavancar shows. Mas tem toda a estrutura que não ganha com show que fica sem remuneração (compositores, arranjadores, produtores, etc).

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Ter Jan 19, 2010 5:48 pm
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